

Poeta português,
descendente de irlandeses e nascido em Lisboa. Autodidacta, fez os estudos
liceais, frequentou a Escola Náutica (Curso de Pilotagem), trabalhou na Previdência,
no ramo dos seguros, nas bibliotecas itinerantes da Fundação Gulbenkian, e foi
técnico de publicidade. Durante algum tempo, publicou uma crónica semanal no
Diário de Lisboa.
Datam do ano de 1947 duas cartas de O'Neill que demonstram o seu interesse pelo
surrealismo, dizendo numa delas (de Outubro) possuir já os Manifestos de Breton
e a Histoire du Surrealisme de M. Nadeau. Nesse mesmo ano, O'Neill, Cesariny e Mário
Domingues começam a fazer experiências a nível da linguagem, na linha do
surrealismo, sobretudo com os seus Cadáveres Esquisitos e Diálogos Automáticos,
que conduziam ao desmembramento do sentido lógico dos textos e à pluralidade
de sentidos. Por volta de 1948, fundou com o poeta Cesariny, com José-Augusto
França, António Pedro e Vespeira o Grupo Surrealista de Lisboa. Com a saída
de Cesariny, em Agosto de 1948, o grupo cindiu-se em dois, dando origem ao Grupo
Surrealista Dissidente (que integrou, além do próprio Cesariny, personalidades
como António Maria Lisboa e Pedro Oom).
Em 1949, tiveram lugar as principais manifestações do movimento surrealista em
Portugal, como a Exposição do Grupo Surrealista de Lisboa (em Janeiro), onde
expuseram Alexandre O'Neill, António DaCosta, António Pedro, Fernando de
Azevedo, João Moniz Pereira, José-Augusto França e Vespeira. Nessa ocasião,
Alexandre O'Neill publicou A Ampola Miraculosa, constituída por 15 imagens sem
qualquer ligação e respectivas legendas, sem que entre imagem e legenda se
estabelecesse um nexo lógico, o que torna altamente irónico o subtítulo da
obra, «romance». Esta obra poderá ser considerada paradigmática do
surrealismo português. Foram lançados, ainda nesse ano, os primeiros números
dos Cadernos Surrealistas.
Em Maio do mesmo ano, foi a vez de o Grupo Surrealista Dissidente organizar uma
série de conferências com o título geral «O Surrealismo e o Seu Público»,
em que António Maria Lisboa leu o que se pode considerar o primeiro manifesto
surrealista português. Houve ainda mais duas exposições levadas a cabo por
este grupo (em Junho de 1949 e no ano seguinte, no mesmo mês), sem grande
repercussão junto do público.
Depois de uma fase de ataques pessoais entre os dois grupos (1950-52), que
atingiram sobretudo José-Augusto França, e após a morte de António Maria
Lisboa, extinguiram-se os grupos surrealistas, continuando todavia o surrealismo
a manifestar-se na produção individual de alguns autores, incluindo o próprio
Alexandre O'Neill, que se demarcara, já em 1951, no Pequeno Aviso do Autor ao
Leitor, inserido em Tempo de Fantasmas. Nessa mesma obra, sobretudo na primeira
parte, Exercícios de Estilo (1947-49), a influência do surrealismo
manifesta-se em poemas como Diálogos Falhados, Inventário ou A Central das
Frases e na insistência em motivos comuns a muitos poetas surrealistas, como a
bicicleta e a máquina de costura. Na segunda parte da obra, Poemas (1950-51),
essa influência, embora ainda presente, é atenuada, como acontecerá em No
Reino da Dinamarca (1958) e Abandono Vigiado (1960).
A poesia de Alexandre O'Neill concilia uma atitude de vanguarda (surrealismo e
experiências próximas do concretismo) — que se manifesta no carácter lúdico
do seu jogo com as palavras, no seu bestiário, que evidencia o lado surreal do
real, ou nos típicos «inventários» surrealistas — com a influência da
tradição literária (de autores como Nicolau Tolentino e o abade de Jazente,
por exemplo). Os seus textos caracterizam-se por uma intensa sátira a Portugal
e aos portugueses, destruindo a imagem de um proletariado heróico criada pelo
neo-realismo, a que contrapõe a vida mesquinha, a dor do quotidiano, vista no
entanto sem dramatismos, ironicamente, numa alternância entre a constatação
do absurdo da vida e o humor como única forma de se lhe opor. Temas como a
solidão, o amor, o sonho, a passagem do tempo ou a morte, conduzem ao medo
(veja-se «O Poema Pouco Original do Medo», com a sua figuração simbólica do
rato) e/ou à revolta, de que o homem só poderá libertar-se através do humor,
contrabalançado por vezes por um tom discretamente sentimental, revelador de um
certo desespero perante o marasmo do país — «meu remorso, meu remorso de
todos nós». Este humor é, muitas vezes, manifestado numa linguagem que
parodia discursos estereotipados, como os discursos oficiais ou publicitários,
ou que reflecte a própria organização social, pela integração nela operada
do calão, da gíria, de lugares-comuns pequeno-burgueses, de onomatopeias ou de
neologismos inventados pelo autor.
Alexandre O'Neill escreveu Tempo de Fantasmas (1951), No Reino da Dinamarca
(1958), Abandono Vigiado (1960), Poemas com Endereço (1962), Feira Cabisbaixa
(1965), De Ombro na Ombreira (1969), Entre a Cortina e a Vidraça (1972), A Saca
de Orelhas (1979), As Horas Já de Números Vestidas (1981), Dezanove Poemas
(1983) e O Princípio da Utopia (1986). A sua obra poética foi ainda recolhida
em Poesias Completas, 1951-1983 (1984). Foi ainda editada uma antologia,
postumamente, com o título Tomai Lá do O'Neill (1986). Publicou dois livros em
prosa narrativa, As Andorinhas não Têm Restaurante (1970) e Uma Coisa em Forma
de Assim (1980, volume de crónicas), e as Antologias Poéticas de Gomes Leal e
de Teixeira de Pascoaes (em colaboração com F. Cunha Leão), de Carl Sandburg
e João Cabral de Melo Neto. Gravou o disco «Alexandre O'Neill Diz Poemas de
Sua Autoria». Em 1966, foi traduzido e publicado na Itália, pela editora
Einaudi, um volume da sua poesia, Portogallo Mio Rimorso. Recebeu, em 1982, o Prémio
da Associação de Críticos Literários.
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